PARTE I A História - De Arraial Grande a São José dos Pinhais

 

Representação de São José dos Pinhais no início do século XVI - A travessia da ponte do Iguaçu Pintura digital. Criação ©Rosicleia Rodrigues 2026

Quadro - Família de índios botocudos, retratada por Debret (1834).

         Para falar na Genealogia de Teresa, é necessário falarmos também, sobre a história da cidade onde ela nasceu, assim como muitos dos seus antepassados, seus filhos, netos e bisnetos. 
       
     Antes dos europeus chegarem por estas terras, já tinham os vários povos indígenas que circulavam o território paranaense, cerca de 8.000 a.C. As provas materiais dessas origens são encontradas nos sambaquis do litoral paranaense, nas pinturas rupestres nos Campos Gerais e em achados arqueológicos. Este é o caso de ferramentas e objetos encontrados em São José dos Pinhais, nas proximidades da indústria Renault, datados pelos pesquisadores da UFPR de 1.500 anos.

    Já os botocudos, ao contrário da fama dócil dos carijós, eram muito hostis e tiveram várias indisposições, tanto com os colonizadores no século XVI e XVII, quanto com os imigrantes europeus que trafegavam no caminho dos Ambrósios (até 1951 a região dos Ambrósios, que hoje pertence ao Município de Tijucas do Sul, fazia parte do território de São José dos Pinhais) ou enquanto estavam nas colônias.

     Segundo os estudos arqueológicos, nesta região do Paraná viviam dois grupos étnicos indígenas: os tupi-guaranis, provavelmente os tupiniquins e os carijós, que viviam mais na região litorânea e de serra, ou seja, na floresta tropical e subtropical, e os botocudos (como se convencionou chamar por aqui as comunidades indígenas da família Jê), que circulavam mais na região do planalto.

    Até o início do século XVII o território brasileiro foi explorado pelos portugueses apenas na extensão do seu litoral. Isso se deve a dois motivos: primeiro, porque devido ao Tratado de Tordesilhas, firmado entre Portugal e Espanha desde 1494, cabia o lado leste do Continente americano para Portugal e o oeste para a Espanha, de acordo com uma linha imaginária, e o que corresponderia aos portugueses sobre o Paraná mal chegava a Paranaguá; o restante, inclusive o território que viria a ser São José dos Pinhais, era espanhol; segundo, porque Portugal até então não estava interessado em investir no Brasil. 

    Foi a descoberta de ouro em Paranaguá pelos bandeirantes no século XVII que fez com que a Coroa Portuguesa mudasse de ideia.

    Por causa do ouro, surge em Paranaguá um povoado. Apesar de se ter encontrado ouro em pequena quantidade, foi o suficiente para atrair aventureiros de toda a parte da colônia. Tal foi a importância da descoberta que a Coroa Portuguesa decidiu transformar Paranaguá em Vila (como era chamado um Município no Período Colonial) em 9 de janeiro de 1649.

    Eleodoro Ébano Pereira, não satisfeito com o ouro encontrado em Paranaguá, decide realizar duas expedições na busca de mais fontes do minério, uma em 1649 e outra em 1651. Descobre-se, assim, ouro em rios do Planalto.

    Um deles foi o rio Arraial, na região nordeste do atual Município de São José dos Pinhais, na divisa com Morretes. O local ficou conhecido como Arraial Grande e tinha um caminho muito utilizado pelos nativos na época, servindo de ligação terrestre entre o litoral e o planalto de Curitiba.

    A carta de Lourenço Ribeiro de Andrade: “no lugar chamado até hoje de Arraial Grande, de onde é tradição que foram as primeiras mostras de ouro e pedras gravadas, deles, enviadas, a sua Majestade pelo ano de 1648”. [...] O quantitativo “Grande”, provavelmente foi acrescentado para diferenciá-lo dos demais, surgidos com a descoberta de outras minas (MOREIRA, 1972, p. 88-89).

    A Ébano Pereira, deve-se, sem dúvida, o trabalho de exploração mineira do planalto, o achamento de ouro, a arregimentação dos mineiros dispersos por arraiais diversos, sobretudo naquele do Arraial Grande (São José) (WESTPHALEN, 1995, p. 105).

    Os pesquisadores da Universidade Federal do Paraná – UFPR, Maria Cristina Colnaghi, Francisco de Borja Baptista de Magalhães Filho e Marionilde Dias Brepohl Guimarães, que descrevem na obra São José dos Pinhais: a trajetória de uma cidade (1992), acreditam que foi com Baltazar Carrasco dos Reis (ancestral de Teresa) por volta de 1660, que se deu o início da exploração do ouro no Rio Arraial e a formação de um povoado.

    As lavras do Arraial Grande foram um dos núcleos originais do efetivo povoamento europeu no Planalto curitibano, tendo sido sua exploração iniciada por um grupo liderado por Baltazar Carrasco dos Reis, que se estabeleceu no Arraial por volta de 1660. Ainda em 1741, já em sua fase recessiva, a mineração nessas lavras era satisfatoriamente explorada por seus descendentes (COLNAGHI; MAGALHÃES; MAGALHÃES FILHO, 1992, p. 16).

    (...) E foi assim que surgiu o ARRAIAL GRANDE, primeiro núcleo populacional português em São José dos Pinhais. É difícil definir a sua localização exata. Segundo documentos da época, o povoado surgiu junto às margens do rio do Arraial, na serra do Mar, local por onde passava o Caminho do Arraial que ligava o litoral com as terras do planalto (MAROCHI, 2014, p. 55).



Praça 8 de Janeiro e Matriz, centro de São José dos Pinhais, ano 1908

     O ano, ou ato oficial, da criação da Freguesia de São José é desconhecido, existiam registros apontando o ano de 1690, como sendo o da inauguração da Capela do Bom Jesus dos Perdões. Esta capela foi construída junto à sede da Fazenda "Aguas Bellas”, local atualmente pertencente à cidade de São José dos Pinhais, nas proximidades das avenidas Rocha Pombo e Rui Barbosa. No entanto, até o presente momento, não foram encontrados documentos oficiais provando o surgimento de uma paróquia logo após a sua inauguração. Dentro do atual espaço são-joseense, uma outra possibilidade da criação de uma paróquia, ou freguesia, ocorreu com a construção da Capela de São José, mas também com data imprecisa. Provavelmente, ocorreu na virada do século XVII para o século XVIII. A pequena capela situava-se no local onde hoje se encontra a Igreja Matriz de São José dos Pinhais, ou a nova Catedral, a partir de 19 de março de 2007 (MAROCHI, 2007, p. 53-54).
    Até o momento, o mais antigo documento oficial encontrado mencionando, várias vezes, a existência da Freguesia de São José é o “Provimento do Ouvidor Geral Raphael Pires Pardinho” (MAROCHI, 2007, p. 54).

        Foi uma correspondência do Ouvidor Pardinho para o rei D. João V, de 30 de agosto de 1721. Onde é citada a Freguesia de São José dos Pinhais, uma extensão da Vila de Curitiba:

        Há no Termo 5 legoas para a parte do Sul da Villa hûa freguesia de São Joseph Senhor Bom Jesus do Perdão, e daqui vão correndo os campos, que ficao por detraz da Serra fronteyra á Villa de São Francisco, donde um morador tem aberto picada, [...] Haverá nas duas freguesias (de São José e Bom Jesus do Perdão e a de Nossa Senhora da Luz de Curityba) da Curithiba 200 cazaes, e mais de 1400 pessoas de confissão (PARDINHO apud SANTOS, 2001, p. 22).

Embora a Freguesia de São José já existisse desde o início do século XVIII, durante toda a primeira metade deste século, os registros de batismo, casamento e óbitos, realizados pela Capela do Bom Jesus dos Perdões ou Igreja de São José, foram arquivados junto aos documentos da Igreja de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais da Vila de Curitiba. Entre eles, o mais antigo encontrado nas pesquisas foi um registro de batizado redigido pelo padre João da Veiga Coutinho no ano de 1693 (MAROCHI, 2007, p. 56).

    Em 1779 a capela de Bom Jesus dos Perdões (que foi a primeira Capela situada em Águas Belas) foi demolida, devido ao seu estado de má conservação. Na sequência, o padre Coutinho doou a fazenda para a administração pública. Por meio de um inventário, realizado em fevereiro de 1808, as terras foram leiloadas e adquiridas pelo imigrante português Manoel Mendes Leitão, influente político são-joseense de meados do século XIX.

    A ocupação oficial do espaço onde atualmente se encontra o município de São José dos Pinhais foi paralela à ocupação do espaço do atual município de Curitiba. A Câmara Municipal de Curitiba foi instalada no ano de 1693, sendo que três anos antes, dentro do atual espaço são-joseense, houve a inauguração da Capela de Bom Jesus dos Perdões. Naquela época, a construção desta Igreja significava a presença oficial de autoridades portuguesas no local, visto ter a Igreja Católica e o Governo Português uma aliança política religiosa. Durante todo o século XVIII, ou anos setecentos, e ainda durante a primeira metade do século seguinte, São José dos Pinhais não possuía a sua Câmara Municipal, mas contava com a presença da Igreja Católica e, sempre se fez presente na Câmara Municipal de Curitiba. Moradores da freguesia eram escolhidos como representantes do restante da população local (MAROCHI, 2003, p. 38).

    O ouro era pouco e por volta de 1750, sua exploração estava praticamente extinta. Sem outra atividade econômica lucrativa, o crescimento populacional foi muito lento.

    Durante todo o século XVIII e a primeira metade do século XIX, a Freguesia de São José possuía uma população pobre e dispersa, onde a grande maioria vivia de uma agricultura de subsistência. Embora fosse esta freguesia uma das maiores da região, ela foi abandonada pelas autoridades locais (Câmara Municipal da Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais de Curitiba), como também pelas autoridades regionais (Capitania de São Paulo e depois província de São Paulo).

    No dia 16 de julho de 1852, foi sancionada a Lei nº 10 da Província de São Paulo, criando a Vila de São José dos Pinhais. A sua instalação e a posse solene dos primeiros vereadores ocorreu no dia 08 de janeiro de 1853. Com a Lei Estadual nº 259, de 27 de dezembro de 1897, esta vila recebeu a categoria de cidade. Assim, a sede do Município passou a ser a Cidade de São José dos Pinhais.

Caso tenha interesse, assista ao vídeo abaixo e conheça um pouco desta cidade.  Filme Institucional de São José dos Pinhais.

Referência: 


Fonte: Carta do Ouvidor-Geral Raphael Pires Pardinho ao rei D. João V, em 30 de agosto de 1721. In: SANTOS, Antonio Cesar de Almeida (org.). Provimentos do Ouvidor Pardinho para Curitiba e Paranaguá (1721). Monumenta. Inverno, 2000, v.3, n.10. Curitiba: Aos Quatro Venstos, 2001

COLNAGHI, Maria Cristina; MAGALHÃES FILHO, Francisco de Borja Baptista de; MAGALHÃES, Marionilde Dias Brepohl. São José dos Pinhais: a trajetória de uma cidade. Curitiba: Editora Prephacio, 1992

LEÃO, Ermelino de. Diccionario Histórico e Geográfico do Paraná. v.1. Curitiba: Empresa Graphica Paranaense, 1926

MAROCHI, Maria Angélica. Câmara Municipal de São José dos Pinhais: 150 anos: 1853-2003. Câmara Municipal: São José dos Pinhais, 2003

De Freguesia a Diocese: a trajetória da Igreja Católica em São José dos Pinhais 1690-2007. Curitiba: Travessa dos Editores, 2007

História & Memória: a busca pela construção de uma identidade de São José dos Pinhais. 1.ed. São José dos Pinhais: edição do autor, 2014

MOREIRA, Júlio Estrela. Caminhos das Comarcas de Curitiba e Paranaguá. v.2. Curitiba: Imprensa Oficial do Paraná, 1975

Eleodoro Ébano Pereira e a Fundação de Curitiba à luz de novos documentos. Curitiba: Imprensa Universidade Federal do Paraná, 1972

SÃO JOSÉ DOS PINHAIS. Lei nº 1, de 19 de abril de 1951. Disponível em: 

https://leismunicipais.com.br/legislacao-municipal/3497/leis-de-S%C3%A3o-Jos%C3%A9-dos-Pinhais?q=1900&page=3>>. Acesso em: 17 mar. 2017

WESTPHALEN, Cecília Maria. Origens e Fundação de Curitiba. Considerações Finais. In: Curitiba, origens, fundação, nome. Boletim Informativo da Casa Romário Martins. v.21. Curitiba: Fundação



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