Os filhos de Teresa e Antônio - Histórias contadas

No centro da foto, as três meninas em pé, são as filhas mais velhas de Antônio e Teresa, foto tirada aproximadamente em 1967 em São José dos Pinhais, na rua Germano Schlogel.

O chinelo na lama

 Para os filhos mais velhos foi mais difícil, Sônia, a filha mais velha sempre contou a história de que ela, a Jucemara e a Maria, que foram as três primeiras filhas e que passaram por muitas dificuldades. Conta que quando estudava no ensino fundamental, tinha apenas um chinelo, este era o único calçado que tinha, tanto para usar em casa, quanto para sair e ir à escola. 

Uma vez, após ter chovido por alguns dias, no caminho até a escola, que era de uns 4km a pé, tinha um lamaçal pelo qual tinham que atravessar. Sônia foi passar e um dos pés ficou preso na lama, não conseguia tirar aquele pé afundado na lama. Após puxar com muita força, o pé saiu, mas o chinelo se perdeu para sempre naquele lamaçal. Nunca mais viu seu chinelo (se duvidar deve estar lá até hoje).

No dia seguinte, lá estavam as três indo pra escola, com os cadernos dentro de um saco de arroz (suas mochilas) e Sônia com os pés descalços, porque não tinha o que pôr.




o Papa João Paulo II


 Eu, a filha caçula dos sete filhos, lembro das brincadeiras improvisadas com latas de leite (colocávamos areia dentro, com furos nas extremidades, amarrávamos arame passando por dentro da lata e saindo nesses furos, que sendo puxadas, pareciam carrinhos). Ou das caixas de ovos que virávamos de ponta cabeça, escrevíamos nos fundo da caixa o alfabeto e ela virava nossa máquina de datilografar (se fosse hoje seria um celular).

Em 1980 o Papa João Paulo II veio ao Brasil e não tenho certeza se veio mesmo para Curitiba, mas na minha lembrança (de 3 anos de idade) ele passou próximo da nossa casa, então, meu irmão Márcio depois desse dia, só brincava de Papa, ele colocava uma bola murcha na cabeça e subia em cima do carrinho de mão e dizia que estava no seu Papamóvel e ficava acenando para mim.

Lembro também, que tínhamos uma bacia grande de alumínio, já era velha, lixo, pois estava furada. Nós colocamos chicletes mascados nos furos, para consertar, subíamos naquela bacia, que era nosso barco e íamos brincar na poça d’água. Teve uma vez que tinha um sapo se aproximando do nosso “barco” e então saímos às pressas gritando: “abandonar navio, tubarão à vista!”

Quando meu irmão Marcos, começou a trabalhar numa casa de lanches que fazia os lanches para aviões e também recolhia esses “lixos” dos aviões (os alimentos rejeitados pelos passageiros) foi o período de abundância na minha vida.

Ele sempre trazia aquelas maletinhas que sobravam nos voos Varig/Vasp  e sempre vinham cheias de guloseimas (bolinhos, geleias Polenguinho e tinha até um chocolate de menta). Foi uma época  inesquecível, pois além das comidas, ainda recebia as maletinhas que serviam de brinquedo (era o meu McLanche Feliz).



Passeio ao Guatupê

Academia Policial Militar do Guatupê, São José dos Pinhais.
Estabelecimento de Ensino Superior fundado em julho de 1931.

  Mesmo sendo a caçula, também presenciei algumas dificuldades, os tempos ainda eram difíceis. Lembro de estar no final do primeiro ano fundamental e que faríamos um passeio com a escola até o Guatupê (Academia Militar do Guatupê em São José dos Pinhais).

A professora disse que era pra todos irem de camiseta branca no dia seguinte, para podermos ir ao passeio. Eu só tinha uma camiseta branca, toda rasgada, mas era branca.

No dia seguinte, me arrumei pra ir pra escola e coloquei a camiseta, minha mãe viu e disse que não era pra ir com aquela camiseta, que era velha e rasgada. Mas, como eu sempre fui muito certinha (e teimosa) insisti e fui com a camiseta. Lembro de estar na fila (agrupamento em fila que as crianças tinham que fazer antes de entrar no ônibus) e os meninos apontavam pra mim e riam, dizendo que eu tinha ido pra guerra. Mesmo eles rindo, eu não me importava, pois estava de acordo, conforme a professora havia pedido: camiseta branca.

No dia seguinte, ganhei uma sacola de roupas, de uma menina da minha sala que contou para sua mãe  e a mesma, separou algumas roupas e pediu que a professora me entregasse. Cheguei em casa muito feliz, pois tinha ganhado roupas novas. Minha mãe ficou furiosa, queria que eu devolvesse as roupas, mas como eu era realmente teimosa, não devolvi e usei por alguns anos ainda.

Nesse passeio ao Guatupê ocorreu outro fato que considero engraçado. Tínhamos que levar lanche pra fazermos um piquenique. Éramos eu, meu irmão Márcio que estava no 4º ano e minha irmã Roseli, que acredito que estivesse no 6º ano. Então, minha mãe deu dinheiro pra minha irmã comprar algo pra levarmos, mas o dinheiro não era muito e minha irmã quis economizar e comprou uma garrafa de um litro, casco de vidro, da gasosa Cini (não me lembro se era de framboesa ou de abacaxi). 

Então, teve toda uma estratégia, arquitetada pela minha irmã, para que os três pudessem tomar o refrigerante. Primeiro ela tomou, deixou mais da metade e levou a garrafa até onde estava a turma do meu irmão. Este, tomou mais um pouco e correu para ver onde estava a minha turma e me entregou a garrafa.

Lembro que já estava lanchando e eu estava comendo o pão que tinha levado. Quando vejo meu irmão, que largou rapidamente a garrafa e falou: “leva depois o casco de volta pra casa” e correu em direção a sua turma, que devia estar bem longe, pois eu não os vi. Parecia que ele estava numa daquelas corridas de bastão, que larga o bastão pro companheiro e sai correndo.

E lá estava eu, cuidando de um casco de refrigerante, como quem cuida de uma boneca, carregando ele pra lá e pra cá, porque ele tinha que retornar pra casa e esta era a minha responsabilidade.



E a ficha caiu

Os quatro filhos mais novos de Antônio e Teresa, foto tirada aproximadamente em 1981.

    Também, não posso deixar de falar sobre o dia que a amiga do meu irmão morreu, eu tinha onze anos de idade, ele estava trabalhando e lembro de minha mãe pediu para eu ir até o bar telefonar. Era um telefone público “orelhão” que tinha dentro do bar, que sempre usamos, pois não tínhamos telefone em casa.

Eu nunca tinha dado nenhuma notícia dessas a ninguém e nem sabia o que dizer. Do caminho de casa até o bar eu fui ensaiando em como dar a notícia. Lembro de pensar que simplesmente falar “fulano morreu” seria muito triste. 

Queria eu dar um tom de alegria à notícia, que era muito trágica. Pois ela morreu afogada, foi num passeio de fim de ano com a turma do Colégio até o litoral paranaense e meu irmão só não pode ir, porque trabalhava.

Chegando lá, coloquei a primeira ficha e pedi para falar com o Márcio. As fichas foram caindo e nada do meu irmão atender o telefone, estava preocupada já com a última ficha presa e logo desceria e seria o fim da ligação. Com certeza minha mãe teria brigado comigo se chegasse em casa sem ter dado a notícia.

Estava já ficando desesperada, até que meu irmão atendeu. Eu, querendo dar a notícia, que era triste, mas eu queria deixá-la mais alegre e a pressão daquela ficha quase que dizendo “ou fala logo, ou desligo”. 

Então eu falei, assim que ouvi a voz do meu irmão: “Márcio, adivinhe quem morreu…” Meu irmão conta até hoje que ficou apavorado naquele instante, mas que foi um misto de pavor e raiva. 

Aprendi que não adianta tentar florir, se a notícia é ruim e tem que ser dada, deve ser dita como de fato é. Mas hoje, nós rimos dessa história.





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